quarta-feira, 26 de julho de 2017

O sertão e os sertões de cada um de nós



Em Terra de sol, obra clássica de Gustavo Barroso, há uma descrição impressionante do sertão, território contraposto ao litoral: “Quem das brancas praias do Ceará demanda o interior das terras, nota que todo o terreno sobe, muito sensivelmente, da orilha do Atlântico para o sertão. (...) Quando o pau-branco se esgalhar entre cerrados de rompe-gibão, troncos altos de catandubas elegantes, e ao olhar se estenderem vastas caatingas de juremas raquíticas, ensombrando touceiras de coroa de frade; quando cortarem o terreno largas lajes de granito e xisto argilosos, quartzitados, se esbarrondarem nas ribanceiras, por entre lascas de calcário endurecido, lenta e silenciosamente se transformando em mármore, — aí começa o sertão”. 

A origem da palavra é controversa, mas, Gustavo Barroso logrou elucidá-la, consultando antigos dicionários portugueses. Descobriu, por exemplo, que a palavra já era empregada em Portugal e, na África, antes de 1500. É corruptela de muceltão, palavra de que se originou a corruptela certão, que indica uma região longe da costa (Frei Bernardo Maria de Carnecatim, Dicionário da língua bunda de Angola, 1804). Neste sentido, pluralizada, serviu a Euclides da Cunha na epopeia Os Sertões (1902). 

A literatura se serviu da caatinga e do cerrado, biomas que compõem o sertão brasileiro, em obras seminais, como Vidas secas, de Graciliano Ramos, Terras do sem fim, de Jorge Amado, e Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Este último narra a jornada mítica do jagunço Riobaldo, narrador do romance. No cinema, Glauber Rocha, no exuberante Deus e o Diabo na Terra do Sol, traduziu o sertão em imagens desconcertantes, dando, mais uma vez razão a Guimarães Rosa, provando que, mais que um lugar, o sertão é uma construção do espírito: "Sertão é dentro da gente”. 

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