domingo, 14 de maio de 2017

JUSTIÇA PARA SANTANINHA


Os esforços envidados pelos poetas e pesquisadores Arievaldo Viana e Stelio Torquato Lima para trazer à baila a fascinante e fugidia personagem Santaninha, pseudônimo de João Santana de Maria, pioneiro da literatura de cordel brasileira, representam um salto qualitativo poucas vezes visto nos estudos da poesia popular. A certeza fulminante advinda da pesquisa, agora transformada em livro, é a de que a cronologia do cordel precisa ser urgentemente revista. Santaninha antecede, em pelo menos duas décadas, Leandro Gomes de Barros (1865-1918), o paraibano genial que nos legou alguns dos maiores clássicos do gênero.

Por que, então, seu nome não consta ou é citado marginalmente por uma reduzida gama de pesquisadores? Por que não há qualquer referência a ele no Dicionário biobibliográfico de repentistas e poetas de bancada, de Átila Almeida e José Alves Sobrinho?

Bem, são muitas as perguntas, e os autores deste livro respondem à maior parte delas com a desenvoltura de quem foi além das fontes primárias. À parte a conhecida e repisada citação de Sílvio Romero em seus Estudos da poesia popular, Arievaldo e Stelio recorreram a acervos, recortes de jornal e obras de referência há muito fora de circulação. Se Santaninha, a princípio, era uma personagem distante, quase evanescente, a pesquisa criteriosa, deu-lhe um rosto, esboçou traços de sua personalidade e reconstruiu sua trajetória de migrante que deixou o Ceará e se instalou no Rio de Janeiro, tornando-se, na capital federal, um cronista popular. Citei-o brevemente, reproduzindo, em nota, o verbete do Barão de Studart que também consta deste volume. Sabia de sua importância, mas não fazia ideia de como inseri-lo no universo da literatura de cordel, tal como se estabeleceu a partir do modelo legado principalmente por Leandro Gomes de Barros. Este livro faz isso muito bem e vai além.

Para começo de conversa, Santaninha não era um poeta tradicionalista como Leandro e os demais pioneiros, longe disso. Seu arsenal compunha-se, majoritariamente, de folhetos-reportagens e de relatos históricos, como o célebre registro da guerra do Paraguai, merecedor da atenção de Sílvio Romero. Leandro também se ocupou de temas históricos e circunstanciais, mas, com um faro mais apurado, por possuir a centelha do gênio, dedicou-se, também, aos grandes temas universais, extraindo das velhas histórias ouvidas no sertão paraibano (A peleja de Manoel Riachão com o Diabo, História do Boi Misterioso) e da poesia tradicional, fonte dos “livros do povo” (Os sofrimentos de Alzira, A donzela Teodora) os motivos delineadores da poesia popular imortalizada no Nordeste.

Santaninha não possuía essa bagagem e, nem por isso, deixou de ser, em seu tempo, um poeta invisível. Faltou-lhe, talvez, se o compararmos a Leandro, um cuidado maior na elaboração de seus versos, carecedores de retoques, numa época em que as regras ainda não estavam claramente definidas. Rimas toantes são muito comuns em sua obra, assim como frequentaram, às fartas, a obra de Silvino Pirauá de Lima (1848 ou 1860-1913), que pertencia ao universo da cantoria e só no Recife, no início do século XX, publicou os seus romances.

A atribuição da introdução da sextilha na poesia popular a Pirauá cai por terra quando vem a lume a obra de Santaninha. Por influência dos estudos pioneiros de Sílvio Romero, que fez escola, tendia-se a considerar a sextilha uma evolução natural da quadra, quando, de verdade, são modalidades estróficas que sempre coexistiram, embora, no cordel, a primeira tenha se tornado preponderante. Essa visão evolucionista, ainda hoje repetida em oficinas e palestras, é impactada pelos poemas publicados neste livro, como o contundente A seca no Ceará, que traz sextilhas como esta:

Deus é quem sabe de tudo,
O homem em nada imagina.
Quando ninguém esperava,
Pelas culpas, esta ruína,
Foi quando Deus das alturas
Baixou sua disciplina.

Não é absurdo, portanto, imaginar que os versos de Santaninha fossem conhecidos por Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista, cujo trabalho editorial, de alguma forma, se inspirava no empreendimento de Pedro Quaresma, no Rio de Janeiro. Sobre essa importante casa publicadora, escreveu a pesquisadora Vilma Quintela:

(...) cumpre ressaltar que o advento do cordel brasileiro como um sistema literário relativamente autônomo relaciona-se, fundamentalmente, com a história da edição popular no Brasil. Nesta, como foi dito acima, destaca-se como pioneira a Livraria Editora Quaresma, que atuou no Rio de Janeiro desde as últimas décadas do século XIX até meados do século XX. No cenário da belle époque carioca, dominado por editoras estrangeiras, tais como a Laemmert, a Garnier e a Francisco Alves, que atendiam sobretudo a uma elite cultural e econômica, o brasileiro Pedro Quaresma se estabeleceu, no final da década de 1870, difundindo, em várias partes do Brasil, incluindo o Nordeste, uma literatura feita em boa parte de encomenda para atender a um público semiletrado, então, emergente. [1]

Embora não tenhamos provas documentais, não é difícil imaginar que não somente Leandro e Chagas Batista, mas, também, João Martins de Athayde, continuador da saga de Leandro, leram Santaninha e tiveram nele um modelo. Modelo imperfeito, é verdade, mas, ainda assim, digno de ser lido, merecedor de aplausos pelo papel que lhe tem sido negado até agora: o de desbravador do cordel, que, como todos os pioneiros, tateando no escuro, conseguiu imprimir a sua marca.

Que este livro seja o primeiro passo para que se lhe façam justiça. Aos autores, nosso aplauso e nossa gratidão.





[1] QUINTELA, Vilma Mota. “A edição popular no Brasil: o caso da literatura de cordel”. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n. 35. Brasília, janeiro-junho de 2010, p. 41-50.

Nota: Santaninha (IMEPH), um poeta popular na capital do império, foi lançado na bienal do Livro do Ceará. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

A TRISTE HISTÓRIA DE JOÃO VICTOR E A LANCHONETE HABIB'S

Capa: Jorge Guidacci



PRÓLOGO

O coração de manteiga
Que a natureza me deu
Não pode ficar isento
Ao caso que aconteceu...
Uma criança agredida,
Só porque pediu comida
Pra saciar sua fome?
Se eu ficasse calado
Meu coração revoltado
Renegaria o meu nome.


APRESENTAÇÃO

Parabéns pelo cordel. Um grito no silêncio que impera nesse mundo de barbárie. Não mais que a história narrada, com a beleza da arte. Fato é fato. Não há uma linha, um verso nas estrofes em que exista uma calúnia, injúria e difamação. Mas a defesa da vida, da dignidade humana, em forma de poesia. Pois a vida é uma poesia no deserto do mundo inorgânico. Mas a vida e o direito à vida tem sido aviltado. Poesia denúncia. Poesia história. Poesia cidadã. Publiquem e deem voz a essa vítima. Vocês estão protegidos pela liberdade de expressão. Publiquem e denunciem que está longe da Constituição virar realidade no universo dos brasileiros. Fracasso do Estado. Fracasso da política. Fracasso da sociedade. Nesse caos e nesse inferno, só a arte pode falar mais alto que a loucura. 

Um forte abraço. Sucesso.

Dr. Valdecy Alves – Advogado, escritor e documentarista


A TRISTE HISTÓRIA DE JOÃO VICTOR E A LANCHONETE HABIB'S

Autores: Klévisson Viana e Arievaldo Viana 

Meu coração de poeta
Não pode ficar calado
A pena do cordelista
Precisa dar seu recado,
Protestar contra esse crime
Que me deixou abalado.

Porque a ganância humana
Perdeu de vez a noção,
Não valoriza mais nada;
Só atende ao deus cifrão,
Somente o lucro interessa
Ao homem sem coração.

Este mundo vem errado
Desde o começo da Era,
Quando o homem não domina
O seu instinto de fera,
Age contra o semelhante
E a maldade prolifera.

Surgiram as religiões,
Mas de pouco adiantaram.
Quando vejo as divergências
Que elas próprias criaram,
Percebo que foi inútil
O que os Mestres pregaram.

A morte dessa criança
Não pode ficar de graça,
Pois todo o Brasil espera
Que a Justiça se faça,
Não deixemos que este caso
Vire comida de traça.

Falo aqui de João Victor,
Um pobrezinho sem nome,
Mais um filho injustiçado
Desse Brasil que não come,
Implorando por migalhas
Para aplacar sua fome.

Covardemente arrastado,
Conforme vi na manchete,
Por dois grandes trogloditas
Em frente a uma lanchonete,
Franqueada do Habib’s,
Levando tapa e bofete.


Dizem que até o gerente
Participou da chacina...
A mim não importa o cargo
Dessa serpente assassina,
Mas o vil capitalismo
Que em tudo predomina.

Depois dessa covardia
Os seus pais denunciaram,
Porém os policiais
Sequer se interessaram
De apurar as denúncias,
Desinteresse mostraram.

A grande mídia se cala
Em nome do vil metal,
É covarde e conivente,
Age a serviço do mal,
Joga o país no abismo,
Chafurda no lodaçal.

Se fosse um garoto rico
A vítima dessa maldade,
O caso rapidamente
Teria notoriedade,
Mas como é um pobrezinho,
É vítima da impunidade.

Ficam inventando desculpas
Para atenuar o crime,
Tomando sempre o partido
Daquele que nos oprime,
Porém quem oculta o mal
Seu pecado não redime!

A Lava Jato não lava
Esse tipo de indecência
Dessa imprensa covarde
Que age por conivência...
Por que a Justiça Cega
Não protege a inocência?

Justiça só a de Deus.
Não, dessas feras mesquinhas
Que agem pela ganância,
Almas perversas, daninhas!
Não sabem que Jesus disse:
— Vinde a mim as criancinhas?

Quantas crianças famintas
São vítimas dessa torpeza?
Quando aparece uma voz
Pra consolar a pobreza
É calada e perseguida
Por quem pratica a vileza.

Cadê o Estatuto da
Criança e do Adolescente?
E os Direitos Humanos,
Onde andarão minha gente?
Por que não clamam à Justiça
Para esse pobre inocente?

Quem vive a bater panelas
Não sabe o que é passar fome,
Nem sabe o que é miséria,
Porque todo dia come!
Não cata restos de lixo,
Não é um pobre sem nome.

A vida humana hoje em dia
Não vale mais um real...
A voz de um pobre faminto
Transborda logo o dedal
Do ódio e da violência
Que move a máquina do mal.

O caso foi em São Paulo
E as câmeras registraram
E mostram os dois brutamontes
Que a criança arrastaram,
Porém para inocentá-los
Mil versões apresentaram.

Mas não são os seguranças
Que eles querem proteger.
Há interesses mais fortes,
Todos podem perceber;
Quem entende de negócios
Sabe o que eu quero dizer.

Não é preciso ser GÊNIO
Para entender a questão,
Nem ter a sabedoria
Do grande Rei Salomão;
Tudo provém da ganância
Do maldito deus Cifrão.

As fotos mostram um menino
Pequeno, magro e mirrado,
Mas tinha um semblante meigo,
Mesmo vivendo humilhado,
Porém a mídia distorce,
Dizendo que era drogado.

Porém, essa alegação,
Da culpa não os redime.
A verdade é que ali
Se praticou mais um crime
Por culpa do Capital
Que nos avilta e oprime.

Pois a balança só pesa
Pro lado que tem dinheiro,
E defende os interesses
Do capital estrangeiro,
Tá cada vez mais difícil
Para quem é BRASILEIRO.

Quando eu digo BRASILEIRO
Falo em quem é PATRIOTA,
Que sente a dor dos irmãos
E a grande miséria nota;
Não em quem bate panelas
Porque esse é IDIOTA.

Nessa pátria sem governo,
Onde o preconceito avança,
Milhões são discriminados
E o capital não se cansa:
Com o seu GÊNIO DO MAL
Assassina até criança.

Se aqui tomamos partido
Perante a sociedade,
É porque fomos crianças
Despidas de vaidade,
Batalhando pelo pão
Nas ruas de uma cidade.

Desde criança sabemos
O quanto é dura a peleja...
Já vi criança humilhada
Na calçada de uma igreja!
Mas Deus que sabe e vê tudo
Não descansa nem fraqueja.

Nós que vivemos no mundo
Precisamos entender
Que a roda da fortuna
Pode se contradizer
E quem hoje está por cima
Poderá retroceder.

Jesus, nosso grande Mestre,
Profeta justo, inspirado,
Diz no Sermão da Montanha
Que é bem aventurado
Quem tem sede de Justiça
Porque será saciado.


FIM.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Cordel e apropriação cultural

Cangaceiro (Aldemir Martins)

Já que o assunto está em voga, perguntaram-me se não há apropriação cultural do cordel, haja vista o interesse de escolas e, num passado não tão distante, a compra por programas de governo.

A minha resposta:


— Não! Se não há o envolvimento amoroso, o enlevo, o brilho nos olhos, não se pode dizer que houve apropriação. O que mais tenho visto são simulacros, arremedos, tentativas desajeitadas de reprodução de um gênero, que exige mais do que técnica, conhecimento de regras ou estudos superficiais, que resvalam em Câmara Cascudo e Leonardo Mota, quando muito. Há, por assim dizer, uma ritualística, que jamais será compreendida por quem acha que um amontoado de sextilhas forma um cordel. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Sobre lobos e ovelhas



Tantos lobos à espreita
E tanta ovelha perdida
Enaltecendo os algozes,
Lambendo a própria ferida,
Louvando aqueles que bebem
Seu sangue e roubam-lhe a vida.

Tanta gente na avenida
Às trevas batendo palmas,
Tantas belas sem recato
Ante a dor alheia calmas,
Ao tempo em que são vendidas
No grande mercado de almas.

Tanto clamor, tantos traumas,
Tanta lei, tanta opressão,
Tanta tristeza no rosto,
Tanta dor no coração,
Tanta terra, tantos frutos,
Tanta boca, pouco pão.

Tantas barreiras que são
Erguidas ante quem sonha,
Tanta hipocrisia a rir-se
Da moribunda vergonha,
Tanta víbora espalhando
Na terra sua peçonha.

Tanta tristeza medonha
Prometida como herança,
Tanto velho sem abrigo,
Tanto parque sem criança,
Tanta pedra, tanto espinho
Na vereda da esperança.

Tanto grito de mudança
Silenciado no muro
E tanto sol afogado
Na lama do quarto escuro,
Tanto presente trocado
Por quase nenhum futuro. 

sábado, 10 de dezembro de 2016

Invictus (tradução)


Mandela em 1960. Crédito: World History Archive / Alamy

INVICTO

Imerso na noite escura
Qual um poço indevassável,
Aos deuses faço mesura
Pela minha alma indomável.

Não tremo, embora pareça,
Ante a garra e a onda turva.
E, aos golpes, minha cabeça
Sangra, porém não se curva.

Além deste lugar triste,
Jazem o horror e a sombra,
Porém, se a ameaça existe,
Dela faço minha alfombra.

Mesmo assim, não me amofino,
Punido, não perco a calma.
Sou senhor do meu destino
E capitão de minha alma.

William Ernest Henley (1849-1903), poeta, escritor e jornalista inglês.

Tradução: Marco Haurélio

Nota: O poema Invictus, escrito por Henley, em 1875, e lido na prisão de Robben Island por Nelson Mandela, inspirou também o famoso filme de Clint Eastwood. A tradução parafrástica, acima, foi feita com versos em redondilha maior com esquema de rimas ABAB. O poema original, reproduzido abaixo, foi originalmente composto em octassílabos. 

Invictus


Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

10 Cordéis nota 10



Atenção! Tenho exemplares da caixinha de folhetos da coleção 10 Cordéis nota 10 (editora IMEPH) disponíveis para venda. São 10 títulos que cobrem quase 30 anos de caminhada poética:

O Herói da Montanha Negra

O Pobre que Trouxe a Sorte de Casar com uma Princesa

João Destemido e as Três Folhas da Serpente

A Briga do Major Ramiro com o Diabo

O Príncipe que Via  Defeito em Tudo

Galopando o Cavalo Pensamento

A Idade do Diabo

Os Três Conselhos Sagrados

As Babuchas de Abu Kasem

História da Moura Torta



Para fazer seu pedido, clique aqui. 

A caixa custa R$ 30,00 (frete incluso).

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Breve História da Literatura de Cordel (segunda edição)



Já está disponível, no site da Nova Alexandria, a nova edição do livro Breve História da Literatura de Cordel. Esta nova edição, revista e ampliada, traz, assim como a anterior, ilustração de capa de Jô Oliveira.

Abaixo, um trecho da Introdução ao livro, sugestivamente batizada como Chegança:

Dobrada a esquina do século e do milênio, a Literatura de Cordel do Brasil, contrariando previsões pessimistas, continua viva. A resistência deste ramo da literatura popular tem motivado inúmeras discussões no meio acadêmico, no qual os estudos sobre Cordel são cada vez mais frequentes. Há várias editoras tradicionais ou instituições imprimindo e comercializando folhetos populares e, a cada dia, mais e mais títulos são lançados em várias mídias, que vão da reprodução por xerox até a impressão em off-set. Verdade que, como em qualquer outro gênero literário, qualidade e quantidade nem sempre caminham juntas. Mas, ao final, somente a joeira do tempo dirá quem sobreviveu às novas possibilidades.

Desde a origem, quando circulou em manuscritos ou em poemas preservados na memória de cantadores e contadores de histórias, até o momento em que se iniciou a produção em larga escala por iniciativa do poeta paraibano Leandro Gomes de Barros, paraibano de Pombal que migrou para cidades dos arredores do Recife, até fixar-se definitivamente na capital pernambucana, o Cordel conheceu cumes e abismos, passou por transformações e se adaptou aos novos tempos. Algumas características básicas definidoras, como a preferência dos autores pelos versos em redondilha maior (de sete sílabas poéticas), com predominância da sextilha, além de temáticas que mesclam o regional ao universal, permanecem. Com Leandro, até hoje considerado o maior poeta do gênero, no final do século XIX e nas duas primeiras décadas do século XX, o Cordel atingiu o primeiro ápice. Não que este poeta tenha sido o primeiro a imprimir e vender folhetos. Definitivamente não o foi. Há registros de folhetos de autores portugueses e brasileiros que circularam antes da alardeada e nunca comprovada data – 1893 – de publicação do primeiro folheto de Leandro. A sua contribuição maior, para além da qualidade de sua obra, foi a criação de uma atividade editorial regular, com o estabelecimento de um modelo que seria imitado por todos os futuros editores, fossem eles poetas ou não. Sua estratégia de publicar os romances e folhetos em fatias, à maneira dos folhetins, mimetizando uma prática comum aos jornais do século XIX, foi muito bem-sucedida, se levarmos em conta a formação de um público fiel e ávido por novidades.

 A editoração, a partir da década de 1920, com a ascensão de João Martins de Athayde, outro paraibano radicado na Veneza brasileira, chegou a um nível de profissionalismo tal que, para atender à demanda de uma legião de leitores, eram impressos milhares de exemplares de um único volume. Athayde, que trabalhava com os títulos de sua autoria e de outros poetas, adquiridos por compra ou permuta (a popular conga), aperfeiçoou o sistema de publicação e distribuição de Leandro, publicando os cordéis em versões integrais ou, quando necessário, em dois ou mais volumes. De 1921 a 1949, embora enfrentando a concorrência do aguerrido poeta, editor e livreiro paraibano Francisco das Chagas Batista, em suas aventuras em tipografias pelo interior e, finalmente, na capital de sua terra natal, Athayde foi quase senhor absoluto de seu ofício.


Muitos outros nomes ajudaram a definir os rumos da literatura de cordel nordestina, a exemplo de José Camelo de Melo Resende, autor do Romance do Pavão Misterioso e de outros tantos títulos de prestígio, e José Pacheco da Rocha, o brilhante autor de A chegada de Lampião no Inferno, o mais memorável dos folhetos humorísticos, cuja inspiração parece vir do teatro de mamulengos, por sua vivacidade despojada de adornos e floreios. Outra geração, nascida no início do século passado, teve um papel igualmente importante na consolidação do gênero, com a ampliação do referencial temático, resultante das muitas diásporas sertanejas, e a consequente evolução gráfica, a partir do desenvolvimento de uma atividade industrial de impressão em São Paulo, depois da década de 1950. Destaca-se, então, a editora Prelúdio, a princípio assessorada pelo baiano Antônio Teodoro dos Santos e depois por Manoel D’Almeida Filho, rebatizada na década de 1970 como Editora Luzeiro, responsável por uma revolução em termos comerciais, a ponto de chocar com suas capas coloridas e edições bem cuidadas os pesquisadores puristas ou “tradicionalistas”.

Para adquirir a obra, clique AQUI

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Cantando com o banjo na beira do mar


Antonio Nóbrega declama estrofe de Marco Haurélio

Mestre Antonio Nóbrega criou o mote do título e o Instituto Brincante promoveu um concurso em que o prêmio era um banjo. Não um banjo qualquer, mas um instrumento da estima do grande artista pernambucano. Escrevi duas estrofes em galope à beira-mar, e uma delas saiu vencedora do concurso.

É a que segue abaixo:

Voltamos ao tempo do arbítrio e da bala,
da bomba que fere, estilhaço que cega,
e do olho que enxerga, mas, mesmo assim, nega;
da boca que fala, mas hoje se cala.
Se cala com medo, pois quando se fala,
se planta a semente do novo pensar;
semente que grita, porque faz brotar
de novo a esperança, que foi violada.
Pela liberdade, contra a mão armada,
cantando com o banjo na beira do mar.


















Atualização: Estive no domingo, 26 de novembro, no Instituto Brincante, a convite de Antônio Nóbrega, para pegar o prêmio. Aliás, o segundo prêmio foi conhecer pessoalmente este grande artista pernambucano, cantor, compositor, ator, poeta e dançarino. A tradução viva e pulsante do Movimento Armorial de Ariano Suassuna. 

sábado, 19 de novembro de 2016

Romance de Iracema

Lira e Nenzinha, duas mestras da cultura popular de Igaporã (BA). 















No dia 5 de maio,
O sol lá por trás dos galhos,
Parecia adivinhar...
Os passarinhos cantavam,
Muita gente até chorava:
Esta história eu vou contar.
Iracema namorava,
Mas nunca ela pensava
De um destino traiçoeiro.
Em palavras bem mesquinhas,
Achou que não lhe convinha
Seguir com Antônio Ribeiro.
Antônio se aborreceu,
Um suspiro logo deu,
Não soltava a sua fala.
Ele fez uma promessa:
Prometeu cumprir depressa
Perseguindo pra matá-la.
O triste acontecimento
Que não teve salvamento
Às sete horas da manhã.
Aos trabalhos dirigia
Iracema nesse dia
Junto com suas irmãs.
Na travessa da avenida
Foi o fim da sua vida,
Coitadinha! não sabia!
Iracema, já cansada,
No meio da encruzilhada
Tropeçava e já caía.
Ele lhe deu três facadas,
Sangue corre às enxurradas,
Travessando seu pulmão.
Antônio saiu contente,
Por ter matado a inocente
Na maior judiação.
E, depois de ter matado,
Declarou o corpo de um lado
Na pavadeira do chão.
Antônio saiu calado
E logo foi agarrado,
Seguindo para a prisão.
Todo mundo arrodeava
E todo se recordava
Com a dor no coração
Ao ver a pobre coitada
Em sangue estava deitada
No meio da multidão.
Pra chegar em casa dela,
Parecia ser a mais bela
Das flores do seu jardim.
Os seus pais, com desespero,
Logo saem para o terreiro
Para ver seu triste fim.
Ela, deitada e já fria,
O povo até invadia
Com suspiro e soluçante.
Não teve quem não chorasse
Ao beijar aquela face
Neste dia lagrimante.
Onde morreu a coitada
Todo mundo faz parada
Somente pra recordar.
Iracema foi-se embora,
Nesta terra já não mora,
Foi pra nunca mais voltar.
O dia do enterro dela,
Pelas ruas, na janela,
Chamava logo a atenção.
Vestida com lindo véu,
Já estava lá no céu,
Deixando recordação.

Informantes: Lira e Nenzinha (Igaporã, Bahia)

NOTA: Este romance em versos composto em sextilhas (esquema AABCCB com rimas toantes e consoantes) é cantado pelas irmãs Lira e Nenzinha Amaral, de Igaporã (BA). Certamente, reproduz um fato real, o assassinato de uma inocente, que causou grande comoção, merecendo o registro de um poeta popular, cujo nome se perdeu. Lira e Nenzinha perderam a visão ainda meninas, conservando uma memória prodigiosa. Conhecem uma infinidade de romances, desde os ibéricos, com grande número de versões e variantes, aos romances trágicos brasileiros, categoria que inclui o exemplar acima reproduzido.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Esconjuros portugueses contra bruxas

Por: José Joaquim Dias Marques
Lionel Lindsay, A Bruxa, xilogravura, 1924.
Como em grande parte do mundo, a noite de Halloween tem-se vindo a tornar uma tradição também em Portugal, e certas pessoas costumam aqui designá-la por "noite das BRUXAS", numa curiosa adaptação terminológica da tradição norte-americana (tradição essa de longínqua origem europeia, claro).

Tendo em mente essa nova (?) designação, de noite das bruxas, vou transcrever alguns ESCONJUROS (subgênero das orações tradicionais que inclui os textos destinados a afastar o mal) contra as BRUXAS, recolhidos por duas antigas alunas minhas da disciplina de Literatura Oral da Universidade do Algarve:

-1-

Informante: Fernanda Teresa Fernandes, 74 anos. Tem a 4ª classe.
Natural de Alfarrobeira, freguesia de S. Clemente, concelho de Loulé, distrito de Faro. Mora em Quarteira, concelho de Loulé.

Esconjuro recolhido nas Baceladas, freguesia de Quarteira, concelho de Loulé, distrito de Faro, em 24/4/2011, por Elisabete Andrade Reis.

Este esconjuro diz-se quando, na rua, se encontra alguém que se suspeita que é bruxa e nos pode deitar mau-olhado. A informante explica que o aprendeu com uma vizinha, em Quarteira.

A folha do alho tem três porras.
Tu és o Diabo que para mim olhas.
Ainda agora Nosso Senhor Jesus Cristo me viu.
Quero que tu vás para a puta que te pariu!

- 2 -

Outro esconjuro com o mesmo objetivo, da mesma informante, Fernanda Teresa Fernandes, recolhido também por Elisabete Andrade Reis, na mesma data do anterior:

Bruxa refinada,
Não tenho nada para te dar,
Senão o leite da Virgem
Ou o pão do altar.

- 3 -

Informante: Catarina Rosária, 85 anos. Foi trabalhadora rural. Analfabeta.
Natural de Algunha, freguesia de S. Barnabé, concelho de Almodôvar, distrito de Beja.
Recolhido em Várzea da Mão, concelho de Loulé, distrito de Faro, a 21/12/2002, por Elisabete Andrade Reis.

Este esconjuro recitava-se quando uma pessoa se cruzava com alguém que tinha fama de bruxa. Repetiam-se estas palavras até se estar a uma distância considerável da bruxa. Enquanto se dizia este esconjuro, colocava-se o polegar entre o dedo indicador e o dedo médio, segundo mostrou a informante, por gestos. A informante aprendeu este esconjuro com a tia e a avó.

Figas real!
Tu és de ferro,
E eu de aço.
Tu és bruxa, 
E eu te embaço.

- 4 -

Informante: Maria Rosa Guerreiro, 62 anos. Natural de Alte, concelho de Loulé, distrito de Faro. É costureira. Sabe escrever e ler, mas muito pouco.

Recitava-se quando uma pessoa se cruzava com outra que tinha fama de bruxa. A informante aprendeu com o avô e já ensinou à filha.

Quando se diz este esconjuro, a pessoa deve colocar o polegar entre o dedo indicador e o dedo do meio (segundo mostra a informante, por gestos) e só parar quando a bruxa se afastou.

Recolhido em Várzea da Mão, concelho de Loulé, distrito de Faro, a 21/12/2002, por Elisabete Andrade Reis.

Tu és de ferro
E eu sou de aço.
Tu és bruxa
E eu te embaço!

- 5 -

Informante: Lucília Maria Cabrita dos Santos, 54 anos. Natural de Castro Marim, concelho de Castro Marim, distrito de Faro. Foi aí que aprendeu este esconjuro, com as amigas, quando era adolescente.
Recolhido em Olhão, a 28/12/2004, por Cláudia Sofia Cabrita dos Santos.

Como se poderá ver, a funcionalidade desta versão é afastar o Diabo e não as bruxas. No entanto, o texto pertence sem dúvida ao mesmo esconjuro das versões nºs 3 e 4.

Tu és ferro e eu sou aço. 
Foge, Diabo, que te embaraço.