terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Vida e Memória

Dane de Jade e o boizinho de papel 
Indo contra o senso comum, e até mesmo contra o ‘bom senso’, ouso afirmar que o nosso bem mais valioso não é a vida. Por que digo isso? Por que a vida não é um privilégio. É uma condição. ‘Vivemos’ como vivem o escorpião, o guepardo, o coala e o bacilo de Koch. Algo tão valioso assim não se se encontra em toda parte. O que fazemos desta condição é o que importa. Passamos, então, do viver para o existir.

Para mim, o bem mais valioso é a memória. Por que afirmo isso? A resposta envolve outras perguntas. Por que, quatro milênios depois de escrito, ainda nos fascinamos com o Épico de Gilgamesh? Por que ainda torcemos para que Ulisses, herói hesitante e de caráter duvidoso, volte para Ítaca e ponha fim aos desmandos dos pretendentes de Penélope? E por falar em Penélope, são as nossas mãos que tecem e a destecem a mortalha de Laertes, como se o seu destino fosse o nosso destino. Por que nos postamos ao lado de Psiquê, que precisa derrotar Vênus, ancestral das rainhas-ogras, e conquistar o Amor (com A maiúsculo mesmo), depois de tantas provações, conforme o registro de Apuleio, no século II da era cristã

Porque, no fundo, do baú e da cacimba, todos nós somos Gilgamesh, Ulisses, Penélope e Psiquê. Não se trata, aqui, de ratificar as ideias elementares, os arquétipos, aquilo que faz de nós uma grande fraternidade ainda que sejamos, em essência, únicos. Porque, além das fronteiras forjadas por tratados e baionetas, há elos que não podem ser rompidos, e não podem ser rompidos por não possuírem a ambicionada materialidade. Se quiser fazer um teste, pergunte para alguém por que faz determinado gesto. O mais banal que seja. Ele poderá não saber o motivo, mas, dirá que o faz “inconscientemente” ou imita outra pessoa. 
Mestre Aldenir no Centro de Pesquisa e Formação do SESC.

Domingo, Lucélia e eu recebemos a visita da atriz e produtora cultural Dane de Jade. Veio acompanhada do mestre Aldenir, figura de proa do reisado cearense. Depois do almoço, conversa vai, conversa vem, mestre Aldenir contou uma história que, em resumo, é a primeira parte do célebre conto “Ali-babá e os quarenta ladrões”. E que eu registrei no livro Contos Folclóricos Brasileiros sob o título “O olho maior que o corpo”. Contou outras, exemplares, e me apresentou versões incríveis de contos do tempo em que Jesus andava na terra, além de facécias protagonizadas por Camões. Depois, Dane falou de sua ONG Beatos e da importância dos líderes religiosos do Nordeste, nomeando Antônio Conselheiro, Padre Ibiapina, Padre Cícero, a beata Maria de Araújo e o beato Zé Lourenço. Ao referir-se ao último, citou a Casa do Boi, que ela mantém no Crato (CE), cujo mote é a história do boi Mansinho. História permeada de lendas. O boi Mansinho, da raça zebu, foi um presente de Delmiro Gouveia a padre Cícero, e que, confiado pelo sacerdote do Juazeiro a Zé Lourenco, acabou sendo cultuado pelo povo. Isso no alvorecer do século 20. O terrível deputado Floro Bartolomeu, espécie de cardeal Richelieu de Juazeiro, inconformado com o culto ao boi, mandou prender o beato, traiçoeiramente, no dia em que este lhe fizera uma visita, e ordenou que abatessem o boi em frente à cadeia onde Zé Lourenço fora encerrado.
Mestre Aldenir, Dane e Lucélia

Dane viu, na nossa estante, um boizinho, cujo bojo era um rolo de papel toalha envolto num tecido encarnado, feito por Lucélia, e se interessou pela peça. Pediu, e Lucélia confeccionou um para ela. O boizinho representado é o do bumba meu boi, auto que remete aos mistérios dionisíacos da morte e do renascimento. Que é o mesmo boi que os antigos puseram entre as constelações, o touro celeste caçado por Gilgamesh e Enkidu, o boi Ápis no Egito, Zagreus na Grécia, o touro sacrificado por Mitra, cujo culto tem origem no Neolítico, migra do Oriente Médio para Creta, se espalha pela Grécia e é levado para a Península Ibérica, sobrevivendo, hoje, na Espanha, na cerimônia profana e sangrenta das touradas. E na representação feiticeira do boi misterioso da gesta nordestina, imortalizada pela literatura oral e pela poesia bárdica do Nordeste, vulgarmente chamada de cordel.

O boizinho de Zé Lourenço era adornado com grinaldas, como o touro sacrificial dos tempos arcaicos, inspiradores. Deuses e heróis daqueles tempos, incluindo o eclético Serápis, morreram, mas sua gesta, vive em nossa memória, Mnemósine, a mais poderosa das deusas. Maior do que o tempo. Maior do que a vida. 

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