quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Cantando com o banjo na beira do mar


Antonio Nóbrega declama estrofe de Marco Haurélio

Mestre Antonio Nóbrega criou o mote do título e o Instituto Brincante promoveu um concurso em que o prêmio era um banjo. Não um banjo qualquer, mas um instrumento da estima do grande artista pernambucano. Escrevi duas estrofes em galope à beira-mar, e uma delas saiu vencedora do concurso.

É a que segue abaixo:

Voltamos ao tempo do arbítrio e da bala,
da bomba que fere, estilhaço que cega,
e do olho que enxerga, mas, mesmo assim, nega;
da boca que fala, mas hoje se cala.
Se cala com medo, pois quando se fala,
se planta a semente do novo pensar;
semente que grita, porque faz brotar
de novo a esperança, que foi violada.
Pela liberdade, contra a mão armada,
cantando com o banjo na beira do mar.


sábado, 19 de novembro de 2016

Romance de Iracema

Lira e Nenzinha, duas mestras da cultura popular de Igaporã (BA). 















No dia 5 de maio,
O sol lá por trás dos galhos,
Parecia adivinhar...
Os passarinhos cantavam,
Muita gente até chorava:
Esta história eu vou contar.
Iracema namorava,
Mas nunca ela pensava
De um destino traiçoeiro.
Em palavras bem mesquinhas,
Achou que não lhe convinha
Seguir com Antônio Ribeiro.
Antônio se aborreceu,
Um suspiro logo deu,
Não soltava a sua fala.
Ele fez uma promessa:
Prometeu cumprir depressa
Perseguindo pra matá-la.
O triste acontecimento
Que não teve salvamento
Às sete horas da manhã.
Aos trabalhos dirigia
Iracema nesse dia
Junto com suas irmãs.
Na travessa da avenida
Foi o fim da sua vida,
Coitadinha! não sabia!
Iracema, já cansada,
No meio da encruzilhada
Tropeçava e já caía.
Ele lhe deu três facadas,
Sangue corre às enxurradas,
Travessando seu pulmão.
Antônio saiu contente,
Por ter matado a inocente
Na maior judiação.
E, depois de ter matado,
Declarou o corpo de um lado
Na pavadeira do chão.
Antônio saiu calado
E logo foi agarrado,
Seguindo para a prisão.
Todo mundo arrodeava
E todo se recordava
Com a dor no coração
Ao ver a pobre coitada
Em sangue estava deitada
No meio da multidão.
Pra chegar em casa dela,
Parecia ser a mais bela
Das flores do seu jardim.
Os seus pais, com desespero,
Logo saem para o terreiro
Para ver seu triste fim.
Ela, deitada e já fria,
O povo até invadia
Com suspiro e soluçante.
Não teve quem não chorasse
Ao beijar aquela face
Neste dia lagrimante.
Onde morreu a coitada
Todo mundo faz parada
Somente pra recordar.
Iracema foi-se embora,
Nesta terra já não mora,
Foi pra nunca mais voltar.
O dia do enterro dela,
Pelas ruas, na janela,
Chamava logo a atenção.
Vestida com lindo véu,
Já estava lá no céu,
Deixando recordação.

Informantes: Lira e Nenzinha (Igaporã, Bahia)

NOTA: Este romance em versos composto em sextilhas (esquema AABCCB com rimas toantes e consoantes) é cantado pelas irmãs Lira e Nenzinha Amaral, de Igaporã (BA). Certamente, reproduz um fato real, o assassinato de uma inocente, que causou grande comoção, merecendo o registro de um poeta popular, cujo nome se perdeu. Lira e Nenzinha perderam a visão ainda meninas, conservando uma memória prodigiosa. Conhecem uma infinidade de romances, desde os ibéricos, com grande número de versões e variantes, aos romances trágicos brasileiros, categoria que inclui o exemplar acima reproduzido.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Esconjuros portugueses contra bruxas

Por: José Joaquim Dias Marques
Lionel Lindsay, A Bruxa, xilogravura, 1924.
Como em grande parte do mundo, a noite de Halloween tem-se vindo a tornar uma tradição também em Portugal, e certas pessoas costumam aqui designá-la por "noite das BRUXAS", numa curiosa adaptação terminológica da tradição norte-americana (tradição essa de longínqua origem europeia, claro).

Tendo em mente essa nova (?) designação, de noite das bruxas, vou transcrever alguns ESCONJUROS (subgênero das orações tradicionais que inclui os textos destinados a afastar o mal) contra as BRUXAS, recolhidos por duas antigas alunas minhas da disciplina de Literatura Oral da Universidade do Algarve:

-1-

Informante: Fernanda Teresa Fernandes, 74 anos. Tem a 4ª classe.
Natural de Alfarrobeira, freguesia de S. Clemente, concelho de Loulé, distrito de Faro. Mora em Quarteira, concelho de Loulé.

Esconjuro recolhido nas Baceladas, freguesia de Quarteira, concelho de Loulé, distrito de Faro, em 24/4/2011, por Elisabete Andrade Reis.

Este esconjuro diz-se quando, na rua, se encontra alguém que se suspeita que é bruxa e nos pode deitar mau-olhado. A informante explica que o aprendeu com uma vizinha, em Quarteira.

A folha do alho tem três porras.
Tu és o Diabo que para mim olhas.
Ainda agora Nosso Senhor Jesus Cristo me viu.
Quero que tu vás para a puta que te pariu!

- 2 -

Outro esconjuro com o mesmo objetivo, da mesma informante, Fernanda Teresa Fernandes, recolhido também por Elisabete Andrade Reis, na mesma data do anterior:

Bruxa refinada,
Não tenho nada para te dar,
Senão o leite da Virgem
Ou o pão do altar.

- 3 -

Informante: Catarina Rosária, 85 anos. Foi trabalhadora rural. Analfabeta.
Natural de Algunha, freguesia de S. Barnabé, concelho de Almodôvar, distrito de Beja.
Recolhido em Várzea da Mão, concelho de Loulé, distrito de Faro, a 21/12/2002, por Elisabete Andrade Reis.

Este esconjuro recitava-se quando uma pessoa se cruzava com alguém que tinha fama de bruxa. Repetiam-se estas palavras até se estar a uma distância considerável da bruxa. Enquanto se dizia este esconjuro, colocava-se o polegar entre o dedo indicador e o dedo médio, segundo mostrou a informante, por gestos. A informante aprendeu este esconjuro com a tia e a avó.

Figas real!
Tu és de ferro,
E eu de aço.
Tu és bruxa, 
E eu te embaço.

- 4 -

Informante: Maria Rosa Guerreiro, 62 anos. Natural de Alte, concelho de Loulé, distrito de Faro. É costureira. Sabe escrever e ler, mas muito pouco.

Recitava-se quando uma pessoa se cruzava com outra que tinha fama de bruxa. A informante aprendeu com o avô e já ensinou à filha.

Quando se diz este esconjuro, a pessoa deve colocar o polegar entre o dedo indicador e o dedo do meio (segundo mostra a informante, por gestos) e só parar quando a bruxa se afastou.

Recolhido em Várzea da Mão, concelho de Loulé, distrito de Faro, a 21/12/2002, por Elisabete Andrade Reis.

Tu és de ferro
E eu sou de aço.
Tu és bruxa
E eu te embaço!

- 5 -

Informante: Lucília Maria Cabrita dos Santos, 54 anos. Natural de Castro Marim, concelho de Castro Marim, distrito de Faro. Foi aí que aprendeu este esconjuro, com as amigas, quando era adolescente.
Recolhido em Olhão, a 28/12/2004, por Cláudia Sofia Cabrita dos Santos.

Como se poderá ver, a funcionalidade desta versão é afastar o Diabo e não as bruxas. No entanto, o texto pertence sem dúvida ao mesmo esconjuro das versões nºs 3 e 4.

Tu és ferro e eu sou aço. 
Foge, Diabo, que te embaraço.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Espaço do Cordel e do Repente é destaque na Bienal de São Paulo



Foram 10 dias de muito encantamento naquele que muitos consideraram o espaço mais aprazível desta edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. O Espaço do Cordel e do Repente serviu àquilo que Vinicius de Moraes chamava de arte do encontro. Quando Lucinda Azevedo, presidente da Câmara Cearense do Livro, me convidou para fazer a curadoria artística, não imaginava o tamanho da responsabilidade. Divido com Arlene Holanda, Crispiniano Neto, Rouxinol do Rinaré, Delma, Zé e todos que ajudaram na construção do projeto e em sua realização, a alegria de ter feito parte de uma equipe que jamais desafinou.

Cordel, repente, xilogravura, coco, ciranda, narração de histórias, cantigas, parlendas, trava-línguas, cantoria, mamulengo, chula, samba de roda fizeram parte de um cardápio generosamente servido ao longo da feira. A justa homenagem a dois grandes nomes do cordel, o pesquisador Joseph Luyten e o poeta Antônio Teodoro dos Santos, que batizaram o prêmio concedido pela CCL a poetas e divulgadores da nossa arte, mostrou-se adequada, pois ambos residiam em São Paulo. Luyten, nascido na Holanda, estabelecido inicialmente no Recife, à rua Motocolombó, na mesma casa em que morou Leandro Gomes de Barros, a estrela mais fulgurante da constelação do cordel, foi um dos grandes pesquisadores do cordel. Teodoro, nascido em Jaguarari, na Bahia, migrou para São Paulo e ajudou a sedimentar o cordel na capital bandeirante, contribuindo sobremaneira com a editora Prelúdio (hoje Luzeiro).

Não podemos esquecer de Luís Antônio Torelli, presidente da Câmara Brasileira do Livro, entidade que organiza a Bienal. Sem o seu aval, nada disso teria acontecido. E nem de José Xavier Cortez que, há muito tempo, reivindica a presença do cordel numa feira do porte da Bienal de São Paulo.

Aos meus amigos, companheiros de arte, reitero minha gratidão. Por muitas vezes, me vi debaixo do umbuzeiro que ficava nos fundos da casa em que nasci na Ponta da Serra, na Bahia, lendo a História de Juvenal e o Dragão e outros clássicos do cordel. É preciso sempre olhar para trás para dar um passo adiante. E, sem essa evocação da memória afetiva, o cordel será apenas um amontoado de rimas e mais nada.


Gratidão!

Apresentação de Paulo Araújo na abertura do Espaço do Cordel. 
José Santos e Jonas brincando de poesia. 
Jô Oliveira.
Genildo Costa e Paulo Araújo
Arlene Holanda dedica livro à pequena fã.
Mestres da cantoria: Sebastião Marinho e Geraldo Amancio.
Luciano Tasso e Lucinda Marques. 
Com o jovem multiartista Rafael Brito.
Xamgai e Lucinda Marques
Lucélia conta histórias.
Paiva Neves, Valdério Costa, Marco Haurélio e Leila Freitas.
Moreira de Acpiara, Stênio Diniz, Chico Pedrosa, Lucinda Marques, Dideus Sales,Bráulio Tavares,
Rafael Brito, Rouxinol do Rinaré, Lirinha, Crispiniano Neto, Paulo de Tarso e Paulo Araújo.
Agachados: Zé Lourenço, Sapiranga, Antônio Francisco, Marco Haurélio e Antônio Barreto. 
  
Lucélia Pardim. 
Eraldo Miranda, Fábio Santos, Lucélia e este que vos escreve. 
Com Antonio Barreto, El Barretón. 
Klévisson Viana, Rouxinol do Rinaré, Cacá Lopes, Varneci Nascimento,
Arievaldo Viana, Crispiniano Neto e Rafael Brito.
José Walter Pires, Marco Haurélio, Antonio Barreto e Raissa.
Josué Campos, Costa Senna e Eugenio Leandro. 
Dois mestres: Chico Pedrosa e Bule-Bule. 
Rafael Brito e Luiz Carlos Bahia. 
Rosi, Paulo Araújo, Bule-Bule, Lucinda e Assis Angelo. 
Socorro Lira em apresentação memorável. 
Dideus Sales e Fátima Ferreira
Luiz Wilson, Pedro Monteiro, Paulo Viana e Marco Haurélio.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Clássico infantil ganha versão em cordel


Texto: Divulgação.


A história do principezinho que veio do espaço para ensinar valiosas lições a um aviador que aterrissou com o avião em pleno deserto do Saara, de autoria do francês Antoine de Saint-Exupéry, foi publicada originalmente em 1943. O autor, que era piloto e serviu às Forças Livres da França durante a Segunda Guerra Mundial, contou sua trajetória na infância e a maneira reducionista como muitos adultos enxergam as crianças. Traduzido em mais de 200 idiomas, O PEQUENO PRÍNCIPE já foi adaptado para cinema, quadrinhos e televisão. E agora ganha também uma encantadora versão em cordel, marcada pelas rimas e pelo ritmo bem marcado da poesia, o piloto conta tudo que aprendeu com o menino do asteroide. Inclusive sobre amar e sentir saudade.

CORDEL DO PEQUENO PRÍNCIPE, é o primeiro título da Coleção CORDEL NA ESTANTE.

Título: Cordel do Pequeno Príncipe
Autor: Stélio Torquato Lima
Ilustração: Maércio Siqueira
Coleção: CORDEL NA ESTANTE
ISBN: 989-85-293-0191-4
Formato fechado: 16 x 23
Nº de páginas: 56
Profundidade: 0,4  cm
Preço de capa: R$ 32,90


Stélio Torquato Lima, nasceu em 8 de outubro de 1966. É doutor em Letras pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB – e professor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Federal do Ceará – UFC, onde também coordena o Grupo de Estudos Literatura Popular (GELP). Entre outras obras para o cordel, publicou: Primas em cordel (versão de 12 obras da literatura universal para o cordel); Iracema, (Adaptação do romance de José de Alencar); Lógikka, a Bruxinha Verde (Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel, organizado pelo Ministério da Cultura); O pastorzinho de nuvens (1º lugar Programa de Alfabetização na Idade Certa – PAIC, da Secretaria de Educação do Estado do Ceará) e Shakespeare em cordel (reunião de 11 peças do bardo inglês para o cordel, publicada em 2013).

Máercio Lopes de Figueirêdo Siqueira, nasceu em Santana do Cariri, no estado do Ceará, em 21 de novembro de 1977. É formado em Letras pela Universidade Regional do Cariri e concluiu Mestrado em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba. É membro da Academia dos Cordelistas do Crato. Graças à literatura de cordel, faz xilogravura desde 1999, a princípio para ilustrar capas e folhetos e depois como forma de expressão artística.


domingo, 24 de julho de 2016

A história dentro da História

Thor com seu martelo Mjolnir. Ilustração de Klévisson Viana.

No romance O Cavaleiro de Prata, que irá ao prelo com o sel oda Editora de Cultura, as personagens contam histórias. E as histórias justificam a História. É o caso da luta da ordem com o caos, simbolizado nos combates recorrentes entre o deus nórdico Thor e os gigantes, que duram até o Ragnarok (o crepúsculo dos deuses). O excerto abaixo reproduzido traz a fala de um dos soldados do rei da montanha, inimigo mortal do príncipe Borg, o protagonista de nossa história:

Há uma lenda que diz
Que há muito tempo viveu
O gigante mais perverso
Que esse mundo conheceu,
Mas,  pelas mãos do deus Thor,
Esse monstro pereceu.

E, conforme a tradição,
Aquela fera esquisita,
Unindo-se a outros monstros,
De feição nada bonita,
Espalhou por toda a terra
A sua prole maldita.
 
Esses monstros miseráveis
Foram vencidos por Thor;
Mas, Odin, o pai do herói,
Como divindade-mor,
Intercedeu na matança
E sobreveio o pior.                                      

Odin achava que os homens
Deviam ser castigados
E assim esses monstros eram
Como flagelos mandados
Para punir os humanos
Pelos deuses condenados.

Resignado, o deus Thor
Interrompeu a matança.
Os monstros ficaram livres
Para a terrível vingança
Contra os homens, pois os deuses
Demônio nenhum alcança.
Odin. Gravura de Klévisson Viana.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O Cordel e a Cultura Popular na novela Velho Chico

Ao sofrer com a seca do Nordeste, Belmiro decidiu se mudar com a família para Grotas do São Francisco (Foto: Caiuá Franco/ Globo)
O retirante Belmiro (Chico Diaz). Foto: Caiuá Franco.

Quem acompanha a novela das 9 da Globo, Velho Chico, sabe que, de vez em quando, surge em cena uma dupla de cantadores que, à maneira do coro grego, apresenta, em versos, acontecimentos cruciais da trama ou improvisa, de forma bem-humorada, sobre as rixas dos clãs rivais na fictícia Grotas do São Francisco: Sá Ribeiro e dos Anjos. Interpretada pelos cantores Xangai (Avelino) e Maciel Melo (Egídio), a dupla desfiou, ao longo de cem capítulos, sextilhas, setilhas, mourões de sete pés e mourões voltados, entre outras modalidades da poesia popular, abrangendo os mais variados temas: uma loa para Jacinto (personagem de Tarcísio Meira), que morre no primeiro capítulo da trama de Edmara Barbosa e Bruno Barbosa Luperi; um folheto narrando o encontro do Capitão Rosa (personagem de Rodrigo Lombardi) com Saruê (apelido depreciativo de Jacinto) no portão do Paraíso; um improviso jocoso acerca de um suposto “chifre” de que foi vítima Afrânio (Rodrigo Santoro); e, mais de uma vez, improvisos sobre a disputa entre o honesto vereador Bento (Irandhir Santos) e o corrupto prefeito Raimundo (vivido pelo grande cantador mineiro Saulo Laranjeira).

Como é sabido por muita gente, tendo sido divulgado em alguns espaços da rede, sou eu o autor destes poemas. Escrevi a maior parte por sugestão dos autores, e, em alguns casos, apresentei sugestões que foram acatadas. Conheci Edmara Barbosa no início de 2014, em Serra do Ramalho, Bahia, cidade banhada pelo Velho Chico, ocasião em que ela se encontrava na região coletando informações acerca das tradições e costumes da região para incorporar à sinopse que escrevera em parceria com o filho Bruno. Ela, assim que soube que eu era cordelista e pesquisador da cultura popular, quis conhecer o meu trabalho que, além de quase uma centena de cordéis, inclui livros com recolhas de contos e cantos populares, cobrindo uma vasta região da Bahia e, eventualmente, outros estados. Depois de um tempo, aprovada a sinopse, a seu convite, tornei-me consultor da história, já aprovada pela Globo, com supervisão de Benedito Ruy Barbosa e direção artística de Luís Fernando Carvalho, o mais autoral dos realizadores da TV brasileira.

A minha missão, além de escrever os cordéis, era apresentar hábitos, festas, costumes, lendas e crendices que margeiam o rio São Francisco. Numa viagem que fizemos, em maio do ano passado, da foz do rio, entre Sergipe e Alagoas, a Bom Jesus da Lapa, Bahia, assistimos, na Vila Boa Esperança, em Serra do Ramalho, a uma roda de São Gonçalo, realizada com a presença de arcos manuseados pelos pares, que foi reproduzida, com esmero, em dois momentos cruciais da história. Os autores ainda incorporaram à história o hábito de muitos idosos, ainda hoje, tecerem a própria mortalha, comprovando que a morte é aceita com naturalidade. O costume, estranho para quem não é do sertão, aparece ligado à figura emblemática da matriarca dos de Sá Ribeiro, Encarnação (a estupenda Selma Egrei), personagem que parece saída de um romance de Gabriel García Márquez, mas representa a arcaica aristocracia rural do Nordeste, que agoniza, se arrasta, mas ainda está viva.

Também estão presentes na trama as pegas de boi na Caatinga, rememorando a civilização do couro, e lembrando que o rio São Francisco, protagonista da história, por seu papel importante na colonização do país, já se chamou Rio dos Currais. O costume antigo de se sair em demanda do gado bravio, criado solto nos tabuleiros e reunido pelos intrépidos vaqueiros, deu origem à vaquejada moderna. Na novela, foi mostrada a pega de boi no “cipoá” (o carrasco), termo que aparece numa obra seminal do cordel, a História do Valente Sertanejo Zé Garcia, de João Melchíades Ferreira, que serviu de inspiração aos autores. A cena, que mostra a disputa entre o herói Santo (Renato Góes) e Cícero (Pablo Morais), filmada com um apuro raras vezes visto, pelo meticuloso Luís Fernando Carvalho, lembrou a disputa épica entre Messala e Ben-Hur, no clássico filme dirigido por William Wyler em 1959.

Isso sem falar na presença mágica de Ceci (Luci Pereira), retrato fiel das benzedeiras, das cassandras sertanejas, com seus prognósticos e meizinhas, transitando, naturalmente, entre a realidade e o sonho. Nos mal-assombros do rio, em que pontifica o Negro d’Água, ou Compadre d’Água, duende benéfico ou maléfico, que só respeita a carranca na proa das embarcações e o tabaco deixado em troca de seu obséquio. E no Gaiola-Encantado, barco-fantasma que recolhe a alma dos mortos que habitam as margens do rio. Tudo isso emoldurado por uma trilha sonora que é uma síntese do sertão mítico e agônico, com nomes como Elomar, Geraldo Azevedo, Tom Zé e Maria Bethânia, além da revelação Paulo Araújo, compositor de Bom Jesus da Lapa, Bahia, barranqueiro até a medula. E pela trilha instrumental de Tim Rescala, que, por vezes, remete aos westerns de Sergio Leone, sem esquecer as matrizes populares da nossa música de que ele se abeberou.

Em síntese, Velho Chico já retratou, em sua história, cantos de lavadeira, benditos, acalantos, "incelenças", samba de roda, além do bom e velho forró pé de serra. Ouso dizer que, na história da TV brasileira, é a novela com maior presença de elementos de nossa cultura popular. E isso, definitivamente, não é pouco. 
Santo (Renato Góes) e Tereza (Julia Dalavia). Foto: Adriana Garcia.
Trechos de cordéis escritos para a novela

REPENTE EM MEMÓRIA DO CORONEL JACINTO 

Vamos cantar em memória
O finado coronel.
Uns dizem que era bom,
Outros que era cruel,
Ninguém vive para sempre
Eis a verdade fiel.

Foi-se embora o coronel
Que dominava o sertão.
Vai comparecer diante
Da Virgem da Conceição,
Contrito, para pedir
De suas culpas perdão.

Hoje, grande multidão
Se aglomera no terreiro
Para beber o defunto
Jacinto de Sá Ribeiro,
Um nome imortalizado
No Nordeste brasileiro.

Foi um grande fazendeiro,
Saruê velho de guerra.
As terras do coronel
Vão do rio ao pé da serra,
Mas hoje ele vai morar
Nos sete palmos de terra.

REPENTE SOBRE POSSÍVEL CHIFRE NO CORONEL SARUÊ

Meu amigo Criatura,
Preste atenção, não se esqueça
O sintoma é muito simples
Basta que o dito apareça,
Pois chifre é bicho que nasce
E não escolhe a cabeça.

Tendo cabeleira espessa,
Seja pobre ou "coroné",
Chifre é bicho democrático:
Vai da nobreza à ralé,
Quem já foi está no lucro,
Azar mesmo é de quem é.

REPENTE EM HOMENAGEM A MIGUEL

Hoje aqui nesta fazenda
A festa é grande porque
Chegou das “Oropa” o neto
Do Coroné Saruê,
E de agora por diante
Vai ser grande o fuzuê.

O neto do Saruê
Chegou falando bonito,
É um moço muito fino,
Já deixou de ser cabrito,
Vai escrever sua história,
Tenho visto e tenho dito.

Vai deixar seu nome escrito
Para toda eternidade.
Nos termos do São Francisco
Será uma autoridade.
Por isso, dr. Miguel,
Bem-vindo à nossa cidade.

Miguel, eu digo a verdade,
Nunca passei por falsário.
Para mim o doutor é
Um moço extraordinário
Que veio para ensinar
O Padre Nosso ao vigário.

O ENCONTRO DE ROSA COM SARUÊ NO PORTÃO DO PARAÍSO

Essa história, meus leitores,
É de fundir o juízo,
Eu não queria contá-la,
Mas juro que foi preciso.
O encontro de Saruê
Com Rosa no Paraíso.

Quando deixou esta terra,
Saruê ficou perdido,
Vagou nas regiões ermas
Do espaço desconhecido,
Passou pelo Purgatório,
Onde não foi recebido.

Foi bater no Paraíso,
Mas a fila era horrorosa.
Lá todo mundo é igual,
Ninguém ganha só na prosa,
E depois de grande espera
Topou o capitão Rosa.

Assim que Rosa chegou,
Sem saber de seu destino,
Viu o coronel Jacinto,
Foi dizendo: “Ô assassino!
Será que nem no outro mundo,
Me livro desse cretino?”

Saruê, vendo o rival,
Disse: Aqui não tem valente!
Mesmo assim, é muito bom
Bater contigo de frente,
Perco a salvação, mas nunca
Deixo um assunto pendente!

Coronel e capitão
Perderam a compostura.
São Pedro partiu de lá,
Disse: “Aqui a casa é pura!
Nunca foi e nem será
Bar de Chico Criatura!”

Brigar na terra, vá lá!
Porque ninguém é perfeito,
Mas aqui na Casa Santa
Não é certo, nem direito.
Vai morar lá nos infernos
O que agir desse jeito!

Os dois, ouvindo São Pedro,
Pararam com a lambança.
São Miguel, logo em seguida,
Chegava com a balança
Pra ver quem seria honrado
Com a bem-aventurança.

Gostariam de saber
Quem se salvou? Eu não sei.
Do céu acabei expulso
E para Grotas voltei.
A verdade é que, por lá,
Só Jesus Cristo é o rei. 

Para assistir à belíssima cena em que este cordel é cantado, clique AQUI.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Vem aí O Cavaleiro de Prata


O gênero fantasia não tem merecido muita atenção dos poetas cordelistas da atualidade, em que pese sua importância ao longo da história. Não por acaso, todos os grandes contadores de história do cordel têm obras no gênero. Comecei a escrever o romance O Cavaleiro de Prata em 1992 e só concluí ano passado.
No enredo, há muitas referências à mitologia nórdica e ao cinema e a história está estruturada como um roteiro de filme de aventura do subgênero “sword and sorcery” (o que não é inédito em minha obra, haja vista O Herói da Montanha Negra).
Com ilustrações de Klévisson Viana, a obra sairá, ainda este, com o selo da Editora de Cultura.

Abaixo, a brevíssima apresentação:
O romance de cordel O Cavaleiro de Prata foi iniciado em 1988, e era ambientado na Inglaterra, uma aventura heroica, inspirada na lenda arturiana e na história de Robin Hood. Não consegui, na época, chegar ao fim da história do jovem Henry, que, ao lado de um grupo de mercenários, combate o despótico rei Ricardo. Em 1992, reescrevi o texto, transportando a história para outro cenário, a Jutllândia, parte da atual Dinamarca, mas não o concluí. Entraram em cena outros personagens: o príncipe Borg, o gigante Guruk, descendente de Skrimir, e a princesa Fridda. As referências à mitologia nórdica pontuam todo o cordel.
Em 1996, escrevi mais algumas linhas, só voltando à saga 10 anos depois. Em 2010 e 2013, cortei várias estrofes e inseri outras, corrigindo a métrica, sem mexer no enredo original e nas rimas. E, no dia 11 de setembro de 2015, finalmente, concluí a obra, totalizando 244 estrofes que cobrem 27 anos de trabalho.
Com O Herói da Montanha Negra, escrito em 1987, mas publicado somente em 2006, homenageei a mitologia grega, sem me basear num episódio ou mito específico do panteão clássico. Com O Cavaleiro de Prata, adentro as florestas e escalo as montanhas geladas da mitologia nórdica (e germânica). Evoco seus guerreiros sedentos de glórias, escondidos sob arneses, brandindo a espada contra os inimigos, humanos ou sobrenaturais. Evoco o amor, vassalo da honra, aparentemente vencido pela morte e pelo tempo.

Terras há muito esquecidas
Hoje estão repovoadas,
Seus cenários recobertos,
Suas glórias olvidadas,
E as grandes lendas parecem
Para sempre sepultadas.
Porém como uma centelha
A lenda chega até nós,
Revivendo uma era mítica
Como igual não houve após,
De cujas reminiscências
Falavam nossos avós.
Na argila sumeriana,
No cretense pavimento,
No papiro faraônico,
No gaélico monumento
Forjou-se a eternidade
Além do fugaz momento.
As caravanas cruzavam
Os desertos do existir,
Quando as falanges da História
Marchavam rumo ao porvir,
O sol sorria fulgores
Olhando a noite dormir.
Os fatos que se passaram
No alvorecer da História
Foram logo enriquecidos
Pelo poder da memória.
Trazem figuras notáveis
E heróis cobertos de glória.
O vento vaga no norte
Do continente europeu
Narrando a saga dos povos
Que o tempo quase esqueceu,
Porém, cuja tradição
De todo não se perdeu.
Pois ainda sobrevive
Nas narrativas orais
Que conseguiram transpor
As fronteiras nacionais,
E, espalhadas pela Terra,
Se tornaram imortais.
A lenda do príncipe Borg,
O guerreiro altivo e forte,
Há séculos encheu de orgulho
Os velhos povos do Norte,
Que celebraram seus feitos
Em vida e depois da morte.
Filho do rei godo Inger,
Há anos estava ausente
Lutando contra os avaros
Numa guerra inconsequente,
Que depois lhe pareceu
Sangrenta, vã, inclemente.
Uma armadura possante
O seu corpo protegia.
Se um perigo o ameaçasse,
A sua espada brandia;
Por Cavaleiro de Prata
Todo o mundo o conhecia.
Nas andanças, travou lutas
Com monstros descomunais,
As criaturas perversas
Dos gigantes ancestrais,
Que, vez ou outra, causavam
Algum trabalho ao rapaz.
Queria provar ao pai
Sua bravura tamanha.
Para tanto era preciso
Obrar incrível façanha
E encher de orgulho as terras
Da primitiva Alemanha.

(...)